quarta-feira, 17 de junho de 2009

Não Chore por mim

Quando eu for embora,
Não chore por mim
Não mereço tanta consideração.
Sou apenas um vulto que você viu na parede.
Nada mais.
Eu sou efêmero como a brisa,
Que acariciou o teu belo rosto, mas, logo foi embora
Eu sou a flor que adornava teu cabelo
Mas logo murchou, perdeu vida, beleza
E caiu no esquecimento.

Quando eu for embora, não chore por mim
Não gaste comigo as lágrimas,
Que estão transbordando em tua face
Não mereço o carinho dessas mãos trêmulas
Que seguram com firmeza, minha mão gelada

Eu não sou teu amigo.
Eu não sou teu amor.
Tão pouco sou teu irmão.

Eu sou trevas,
Eu sou luz,
Eu sou a melodia,
Mas também sou o silêncio.
Eu sou a cruz que abrigou Jesus,
Nas suas derradeiras horas de sofrimento.

Eu sou aquilo que você não foi,
Mas se quisesse,
Poderia ter sido.
Eu sou a paixão ardente,
Que nem chega a ser amor!
Eu sou um livro
Na estante esquecido.
Eu sou um roseiral que há muito murchou.

Por isso quando eu morrer, não chore por mim.

Aflaudisio Dantas

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Oração do Desespero

Deus me livre do zumbido
Que veio perturbar meu sossego.
Deus me livre do mendigo,
Que cobiça minha carteira.
Deus me livre da vizinha,
Que vive a vomitar asneiras.
Deus me livre do imposto,
Que faz sucumbir minha renda.
Deus me livre da sogra,
Essa desgraça horrenda.
Deus me livre do bastardo,
Afanador de pensões.
Deus me livre do infarte,
Assassino de corações.
Deus me livre da cirrose,
Que engulo com a cachaça.
Deus me livre da piada,
Que não me fez achar graça.
Deus me livre da menoridade,
Que ainda me aprisiona.
Mas também me livre do mundo.
Deus me livre da Vergonha.
Deus me livre do Destino,
Que teima em controlar meus passos.
Deus me livre do pária ,
Que me trai com mil abraços.
Deus me livre da agonia diária,
Que ao ser humano é inerente.
Deus me livre da cefaléia .
E também da dor de dente.

Aflaudisio Dantas

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Delírio Consciente


Delírio meu olhar-te assim. Como um pirata cobiçando um tesouro. Mas, a culpa é toda sua. Pois, com teus modos delicados conseguiu afetar-me por completo. Penso em você durante as vinte e quatro horas do dia. No banho, nas minhas orações, até mesmo durante os jogos do Vasco. Você preencheu os vazios que se faziam presentes em meu ser. E eu nem preciso tocar-te, basta contemplar a tua beleza incomensurável.

Meu coração palpita no ritmo de teus passos. Meus olhos acompanham aflitos o rebolar dos teus quadris. Meu sangue ferve, e meu rosto se ruboriza ao sentir a sua presença. Você veio animar meu carnaval em plena quarta-feira de cinzas. E para isso nem precisou usar confetes.

É realmente muito estranho. Ainda outro dia, você era uma ilustre desconhecida perambulando a periferia dos meus pensamentos. Hoje, você é o ícone maior da minha existência. Qual é a sua mágica?

Talvez sejam esses olhos castanhos que me fitam curiosos. Quem sabe esse sorriso acolhedor que me transforma em criança novamente. Bem podia ser a tua pele morena povoada por singelos pêlos loiros. Ou ainda os teus lábios carnudos, sempre convidativos a um beijo. É difícil descobrir. Mas, quem tem o principal dispensa os acessórios. Não importa o motivo desse meu fascínio. Importante é que você continue ao meu lado, porque eu te amo!


Para a morena mais linda que já cruzou o meu caminho.

Aflaudisio Dantas

sexta-feira, 29 de maio de 2009


Descoberta Fúnebre

Caminho por cima de toda a carniça.
Sinto na pele um calor intenso.
Protejo a boca com um lenço.
Não da poeira, mas, do cheiro ocre.

Fixo o olhar numa caveira,
Que decomposta jaz no chão.
Sinto o pulsar do seu coração,
Como se ainda tivesse vida.
Vejo a minha ruína esculpida,
Nesse rosto fétido e magro.
Continuo andando, mas, com cuidado.
Pois não quero sujar meus sapatos.

Olho novamente para o corpo magro.
Parece que antevejo meus infortúnios.
Sinto-me acometido por uma angústia,
Que se desenvolve no meu inconsciente,
Se fazendo aos poucos onipresente.
Quando noto, já estou envolto,
Num nevoeiro denso, incrivelmente escuro.
Desejo sair, uma saída procuro
Mas esbarro sempre na maldita caveira.
Que agora parece aprisionar-me,
Com seu olhar a me estremecer.

"Estarei louco?" Me indago num instante
Penso em gritar por socorro,
Mas, quando vou falar já não sinto a língua
Serpentear dentro da minha boca.
Também não vibram minhas cordas vocais.

Começo a correr, mas, correr para onde?
Onde quer que eu olhe é sempre a mesma cena.
Por um momento penso em Helena,
Que deve estar me esperando.
Mas, de repente, vejo Helena chorando,
Curvada sobre um caixão.
Corro para socorrê-la de tal aflição.
Mas fico paralisado ao chegar.
Instantaneamente desato a chorar.
Pois agora percebo o que se passa.

Vendo minha grande desgraça,
Amaldiçoo tudo o que há no mundo.
Sinto-me deveras inconformado,
Só me resta exlcamar desolado:
Oh! Meu Deus! Sou eu este defunto!

Aflaudisio Dantas

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Lágrimas de Deus

Já estava ali a muito tempo e nada acontecia. Três ônibus já haviam chegado e em nenhum deles ela veio. A chuva comecara a engrossar e penetrava pelas folhas da copa da árvore, indo bater direto em seu rosto, escorrendo pela sua face, embaçando seus óculos. De súbito, uma pequena lágrima brotou no canto do seu olho; mas era tão tímida que mal poderia ser notada. Mas, como se fosse combinado,à medida que a chuva ia aumentando, suas lágrimas também aumentaram.
Estava com o coração destroçado, só o que podia fazer era chorar.Por ser introvertido, ficou com receio de que as outras pessoas percebessem que estava chorando. Tentou então de todas as maneiras disfarçar o choro e obteve um certo êxito.
E enquanto chovia, ele ficou sentado esperando, mesmo sabendo que seria em vão.Subitamente percebeu que num banco próximo ao seu tinha um senhor também sentado a lhe observar. Foi então que este senhor, de cabelos grisalhos inclinou-se e fez a seguinte pergunta:
_Por quê está chorando meu filho?
Ele então respondeu visivelmente contrangido:
_Não estou chorando. É apenas a água da chuva que cai sobre meus olhos e escorre pelo meu rosto.
O velho respondeu:
_Não precisa ficar envegonhado meu filho. Eu também já fui jovem, sei como se sente. Pois um dia, há muito tempo, eu fiquei esperando por uma pessoa que era muito importante para mim. Infelizmente ela não apareceu. Só o que pude fazer foi chorar. Minha tristeza era tão grande que até Deus chorou comigo,exatamente como agora.
Aflaudisio Dantas

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Redenção

De forma assustadora,
Invadiu todo o meu ser.
Redirecionou o sentido ,
Da minha existência.
Fez meu coração débil e gelado,
Se transformar num ser com vida própria
Meus dias que eram cinzentos,
Tornaram-se multicoloridos.
Minhas músicas melancólicas,
Ficaram mais alegres.

Fizeste revolução dentro de mim.
Da minha alma até a carcaça.
E quando tudo já era diferente,
O céu já não estava nublado,
E as flores não murchavam mais:
Sob o véu da covardia
Tu me abandonaste.

Nem ao menos foste sincera,
Nem me deste satisfação.
Apenas, virou as costas.
E à medida em que te afastavas,
Tudo ia desabando.

Os dias que antes eram cinzentos,
Agora são negros por completo.
No lugar do céu nublado,
Cai uma chuva torrencial.
Mas, o que não mata fortalece.
E desse mal não morrerei.
Assim como fui abandonado,
Abandonarei também este mundo esquizofrênico...

Aflaudisio Dantas

sábado, 23 de maio de 2009


Melancolia Paranóica

Sozinho na imensidão do seu quarto.
Olhando para qualquer lado.
Não consegue ver as estrelas.
Mas, se contenta com o telhado
A fome bate em sua barriga.
Nenhuma mulher bate em sua porta.
Apesar dos dias nebulosos,
Faz tempo que não chove em sua horta.

Já foi rebelde sem causa,
E até crente sem religião.
Já foi um homem alegre.
Porém hoje não tem satisfação.
Sente o tédio lhe comer inteiro,
Até os confins de sua alma.
Tem vontade de se matar,
Mas pra isso coragem lhe falta.

Aflaudisio Dantas